sexta-feira, maio 18, 2007

Cheguei!, por Vasco Granadeiro

Há dias que se acorda com saudade. Mas isso não é bom, principalmente quando a manhã é de corrida para o trabalho. A saudade deixa-nos sensíveis, fragilizados, e neste mundo de “cão que come cão” o saudosismo pode bem pôr-nos a jeito… E a ser um deles – digo eu – antes ser o primeiro que o segundo. Melhor ainda se o segundo não for um cão mas sim uma… espetada de lulas com gambas, mas isso não tem que ver com o assunto. O melhor mesmo é ter saudades antes de ir dormir. Uma pessoa está ali a lavar os dentes, a sentir uma belas saudades (se for do sexo feminino faz um bocado de força para não chorar), vai para a cama, sonha com o Belenenses a levantar a taça e acorda rijo que nem pão de três dias. Foi o que eu fiz.

Parece que foi ontem que desembarquei em Florianópolis… O Caliço tinha três dias de avanço sobre mim, as suas indicações precisas sobre o nosso ponto de encontro eram nada mais do que depositar a minha vida nas mãos de um taxista brasileiro. O “posto da Texaco no Centrinho da Lagoa” até soava divertido, bem legal mesmo, onde um cara podia dançar um sambinha e beber um shopp com a galera, o pior era lá chegar. Só que a senhora simpática que sempre se senta ao nosso lado quando voamos sozinhos – e que fala pelos cotovelos – sabia muito da ilha e tinha um carro no aeroporto. À oferta de carona eu, maturamente, respondi que sim. Também, entre ela e o taxista…Estava um calor de ananases a meio de Fevereiro, os carros eram diferentes, era de noite, as pessoas eram diferentes – as caras e o olhar –, era aquele primeiro baque de sensação de afastamento de tudo o que se conhece e já se viu… (uma coisa é ir passar uns dias, outra é passar uns meses!) Soube-me mesmo bem. Eu já estava em pulgas para chegar ainda não tinha saído de Portugal, a ideia de passar ali o semestre, no desconhecido, provocou-me um daqueles arrepios na espinha que resulta num sorriso aberto e num optimismo avassalador. Naquele momento não trocaria estar naquele sítio por nada no mundo. Mas as boas vibrações não duraram muito: a mulher disse-me que afinal só me podia deixar não sei onde e que dali teria que seguir de táxi. Estragou-me a fantasia de chegar de motorista e com uma bela história para contar aos netos. “Sovina, vê lá se te custava muito, obrigadinho por nada!”, pensei. Também nunca fui muito de optimismos.

Como se a língua estrangeira fosse o grande obstáculo entre mim e o táxi que queria apanhar, a mulher chamou para mim um que ali passava. E caprichou! Um Fiat Uno, todo podre. Sabe-se lá porquê, associo sempre o táxi àquele Mercedes de praça (essa barcaça!), com trinta anos e três voltas completas ao conta-quilómetros, mas com aquela classe. Só que o táxi que me ia levar ao paraíso – com duas malas e um portátil – era um Fiat Uno, todo podre. E o condutor: um anão, de voz nasalada. Simpaticamente ofereceu-se para me ajudar com as malas. Qualquer uma era maior que ele, declinei afirmando-me forte e saudável. Lembrei-me das formigas, que levantam um peso maior do que o próprio.

Ele não era aquele anão normal, tinha a cabeça pequena e praticamente não tinha pescoço, os membros eram proporcionais ao tamanho do corpo. Era como um homem pequeno, do tamanho de uma criança de cinco anos, sem pescoço. Era uma figura engraçada, afável e bem disposto, a voz nasalada com o português de lá ficava-lhe a matar. Tratava-me como um turista (como é que ele percebeu?), perguntava-me por Portugal (era um anão muito sábio) e elogiava o Brasil de forma um pouco exagerada. O pequeno carro era bem veloz e o pequeno condutor gostava de conduzir com a perna direita bem esticada. Quem olhava de fora via um carrinho a voar baixo e a conduzir-se sozinho. Isto preocupou-me. À frente dele o volante do Fiat Uno, todo podre, parecia a roda gigante da feira popular, era entre o aro e acima dos manómetros que se situava o seu campo de visão. Mas quanto acima? Por outro lado estávamos seguros quanto a um eventual ataque aéreo: o banco bem chegado à frente e a sua baixa estatura proporcionavam-lhe uma soberba perspectiva do céu estrelado.

Avançávamos por entre prédios e colinas com nomes esquisitos, mesmo descontado a pronunciação nasalada. Perguntei-lhe pela Lagoa da Conceição, elogiou desmesuradamente o sítio. Com tudo o que ele tinha elogiado do Brasil, onde é que já ia a credibilidade dele... Mas a culpa não era dele, eu é que perguntei. Já estava a ver as gatas com uns pêlos a mais, a praia com uns ratos a mais e a noite com uns veados a mais...

“Cheguei!”, gritei quando vi o Caliço. “Quanto é que pagaste de táxi?”, “Trinta reais…”, “Foste roubado.”. Pequeno esperto, grande estúpido.

Vá lá que não mentiu quanto à Lagoa da Conceição…

terça-feira, setembro 20, 2005

A Gorda, por Vasco Granadeiro

A minha motivação para a escrita pode apresentar-se de várias formas. Enquanto no Brasil era principalmente a vontade de espalhar pelos infortunados as castiçadas do Vereador, agora cá revivo sorridente cada uma que ficou por contar lá de longe. Claro que também conta – e muito – saber que existem pessoas que realmente lêem as parvoíces relatadas neste blog, é um lisonjeio tremendo!
No outro dia surgiu-me a motivação em forma de irmã do Caliço. Caída do céu, dirigindo-se a mim apenas por me reconhecer de uma fotografia, a Joana era um farol num mar de gente, iluminando o mais perdido dos marinheiros.
Também de outra mulher próxima de João Caliço, Felipa Rito – (única) namorada,
aka (as known as) Gorda, para ele – saiu a minha última motivação. Um truque antigo, recorrente de psicologia barata: um queixume sem fim – “desilusão” foi a palavra-chave –, por não ter o seu nome referido uma única vez neste blog, acoplado de um galanteio elogioso de cor vermelha embaraçante.
Eu finjo que caio e cedo, mas na verdade ela já merecia uma referência. Provavelmente não era bem esta a referência que ela desejava…
Ver meninas bonitas no Latitude não era assim tão frequente, talvez por isso tenha sido tão apreciado pelas semi-deusas que nos visitaram. Lá eram elas o sucesso da festa, o acordeão do Quim Barreiros, o Mantorras do Benfica.
Mas naquela noite tinham concorrência à altura: Joyce (arrepio-me só de mencionar seu nome). Linda, delicada, dançante, bêbada, Joyce deliciava a assistência com passos descarados e olhares sedutores. Alguns, os poucos bafejados pela sorte, foram também bafejados por ela em conversas inaudíveis e inusitadas, beijos soltos na face ou em direcção aos lábios mas a morrerem na praia. Ou seja, o que qualquer crânio com barba interpreta como o convite para a mais inesquecível das noites.
Em pouco tempo tinha ela já uns três ou quatro cachorrinhos em sentido, prontos a marchar, ou mesmo galopar, se ela o quisesse. Sedentos, cegos, loucos, ali não havia amigos (“Tudo vale no Amor e na (Lati)Guerra”). Mas o empate a zeros mantinha-se, teimosamente. No fundo, todos queriam uma talhadinha mas nenhum tinha faca. Será que haveria sequer uma faca? Ou o produto exposto naquele estabelecimento não seria para consumo?
Um reflexo da iluminação barata do sítio arrumou com a disputa. Num canto, escondida mas atenta, estava a Felipa, armada. E não era com uma faquinha de descascar fruta: era o maior cutelo que já vi, daqueles do talho, que parte uma vaca em dois. Ao vê-lo, Joyce correu para ela: “Você é linda!”.
Dá deus nozes a quem não tem dentes…

quarta-feira, setembro 14, 2005

Confuso, por Vasco Granadeiro

Sol ou Lua, dia ou noite
Manhã chuvosa ou céu azul
Não sei se vá para Norte ou Sul
Não sei se vá ou se pernoite.

Uma ou outra, ou nenhuma
Carne ou peixe, água ou sumo
Vejo-me numa nuvem de fumo
Num novelo de pura bruma.

No mar salgado ou na montanha
O cansaço tolda-me a razão
O tempo desnudará a solução
Aguardo, por mais tarde que venha.

Abrir os olhos mas sem ver
Ou abri-los e poder olhar:
Onde reinar, quem reinar!
Onde poder adormecer!

quarta-feira, agosto 31, 2005

Câmara de Água, por Vasco Granadeiro

É com outro espírito que agora escrevo. O semestre acabou, e com ele o reinado em Floripa e a expansão do reino por terras da américa latina. Agora escrevo da minha pátria, feliz com o que cá reencontrei, mas só de observar o simples título deste blog faz-me recordar tudo o que se passou, do primeiro ao último dia além Atlântico, e por isso choro por dentro. No entanto não ainda não escrevo a anunciar a morte deste blog: enquanto houver histórias que não foram narradas este blog viverá!
Nesse fim de noite o shotgun foi bradado pelo Câmara, azar o dele. Estava especialmente frenético e nem o ritmo avassalador do El Divino chegou para lhe diminuir as rotações. Eu guiava, sereno, mas ao meu lado estava um cãozinho a pilhas, armado com um resto de bebida daquelas com cheiro a pastilha elástica. Escusado será dizer que esse delicado bouquet se tornou a minha fragrância para o resto da viagem, já que equilibrar o copo nos solavancos parecia demais para o nosso coelhinho da Duracel. Todavia ganhar aquele lugar da frente não era bem uma vitória, a não ser que se apreciasse partilhá-lo com outro rapazinho, bem juntinhos – era essa a disposição regulamentar de um Fusca sobrelotado: dois no lugar-do-morto e três atrás. Teve apenas esse atenuante, já que partilhar o lugar da frente com o Caliço não melhorou em nada a sua destreza, muito pelo contrário. Mais: alguns salpicos na minha camisa levaram mesmo o selo do canhoto.
E até casa foi um inferno. Ou era a condução, ou eram os buracos, ou eram as curvas ou era o Caliço: o Câmara não se calava fazendo as delícias da plateia traseira, que ia ajudando à festa. Eu suspirava e conservava a postura, ria-me a espaços, já com o braço das mudanças em ponto caramelo.
O lugar da frente era um lugar de responsabilidade: o seu ocupante tinha sempre que manter a janela aberta e o braço de fora – para “dar estilo” – e sempre abrir o portão de casa com o comando que estava no porta-luvas, sem qualquer chamada de atenção por parte do condutor.
O Câmara tentava pela milionésima vez abri-lo mas em vão (o Xico era o único que o abria à primeira e através do vidro). “Deixa-me que eu consigo, vá lá!”, repetiu até ao fim da minha paciência. Quando o Câmara devolveu o comando ao porta-luvas eu vi-o como um sinal de desistência, e ao ir lá retirá-lo de novo ele estatela os meus dedos com um fechar repentino deste, ajudado pela mola. Afinal tinha conseguido e o portão abria, o que lhe deu um pouco de razão. Mas com os dedos a doer e já consumido por toda a algazarra gerada por ele, eu disse, em jeito de desabafo: “Bem feito era meter o nosso amigo Câmara na piscina”.
Já com o carro estacionado e a dirigir-me para a porta de casa ouço os gritos do Caliço e do Xico a pedirem-me ajuda. Estavam os dois agarrados ao Câmara à beira da piscina, riam-se e esgatanhavam-se, cegos no objectivo de dar banho a este, calçado com sapatos de vela e a mais impecável das camisas. Eu até sou boa pessoa e não costumo alinhar nessas brincadeiras cruéis, mas quando dei por mim estava a dar aquele empurrãozinho que faltava, e as águas paradas da piscina preparavam-se para receber corpo contrariado do nosso amigo, que para lá voava.
A seguir risota, claro, e o culpado: eu. Ainda temi que o Câmara tivesse um resto de bateria para se vingar mas não. Calmo e molhado, com um sorriso um pouco amarelo mas sem fúria no olhar, recolheu-se aos seus aposentos, sem praguejar sequer. Confesso que depois me senti culpado e que a minha consciência ainda lhe levou uma maçã descascada à cama. E tudo morreu ali.
Mesmo assim, desde então, enquanto ele lá esteve, passei a controlá-lo no momento de passar pela piscina. Ele ria, ameaçador.

terça-feira, julho 26, 2005

Inverno de Esperanca, por Vasco Granadeiro

Nunca o Inverno foi täo frio
Täo escuro, täo sombrio.
Tempo eterno de penumbra
Fome e sofrimento
E o fim näo se vislumbra.

A última Primavera, anos atrás
Só vive no meu pensamento.
Porque para ela jaz
Morta, enterrada
Perdida no esquecimento.

Por vezes aparece o Sol
E um raio de calor
Ilumina uma esperanca.
Ilusäo, uma macä envenenada
E logo uma nuvem o engole.

Viajo de cidade em cidade
Aguardo um claro alvor
(Porque quem espera alcanca)
E enquanto passa a tempestade
Eu sonho com a bonanca.

sábado, julho 23, 2005

P'a Nasca, por Vasco Granadeiro

Ainda me lembro do riso da recepcionista quando lhe disse que ia viajar na America del Sur. "Cruz del Sur?", "Nao, America del Sur...". O jantar antes da viagem foi a mais estranha refeicao dos últimos tempos: o meu pedido de desconto de 50 centimos de Sol, concedido, resultou numa refeicao totalmente escolhida pelo cozinheiro, sem que eu pudesse sequer reagir. Depois de uma entrada de Cussa e de um Arroz de Chauffa, tudo isto regado por um sumo de laranja miccionado pelo diabo em pessoa, voltámos ao hotel (hotel...) para a despedida. Só o Calhau me separava da solidao que agora (por enquanto) enfrento, e o taxi dele já o esperava.
Minutos depois entrei eu no meu, a caminho do amistoso bairro La Victoria, a fina-flor de Lima, onde andar a pé é andar nu. Largou-me rigorosamente á porta - neste caso porta é só uma forca de expressao - e eu contemplei a agencia que os meus 25 Soles tinham contratado.
Paguei para usar a pior latrina daquele bairro reles - infeliz ironia - , já que o autocarro em que seguia nao dispunha de uma. Até me parece se me aliviasse sobre qualquer superfície pública seria benéfico para a sua limpeza - um comeco, digamos - mas enfim. Como habitual, de mochila em punho, procurei quem carregava as malas na cave e, surpresa a minha, quando me disseram para a levar para a cabine. Nao havia de ser eu a excepcao, limpei as gotas de suor frio e esperei o pior.
Efectivamente la em cima era o caos. As filas de cadeiras nao podiam ser mais próximas - para fazer render o peixe -, por pouco que nao havia dois lugares por cadeiras. E claro, o inevitável cheirinho a cacau inundava aquele espaco fechado - mas nem Suchard nem Nesquick, um daqueles do Mini-Preco, bem rancoso, que se serve á pazada - onde os gritos das vítimas de esmagamento se confundiam com as explicacoes de um tipo de bigode a uma ancia, também de bigode, na última fila, surda que nem um calhau, que teimava em nao ouvir que o lugar 3 era lá á frente. Eu sempre disse que só queria conhecer um tipo que fosse p'a Nasca, e lá estava, uma camioneta cheia. Tudo p'a Nasca mas continuei a sentir-me sozinho: ninguem usava mochila ou falava uma língua que nao fosse quechua ou aimara. Aquilo nao era um autocarro, era um tipi - so índios iam p'a Nasca.
Felizmente que mesmo por cima do meu lugar havia espaco para a minha mochila, longe dos enchidos e das marmitas com escabeche de frango. Perante o meu esforco para enfiar a minha mochila num espaco de todo inadequado, ouco uma voz, suspirando com desdém: "Las mochilas...". É preciso ter lata! No meio de um bando de nómadas, que até renda pagam da casa que trazem ás costas, foi escolher-me a mim para refilar! Pode ser que uma questao de moda, mas nao tenho a culpa que a minha Winner 55 nao esteja á altura dos populares sacos de estopa de tamanho familiar. E que, por acaso, a voz até tinha! E logo dois!
Finalmente lá consegui enfiar a mochila na prateleira superior e visualizei o meu lugar: na minha poltrona á janela sentava-se distraidamente um jovem, deixando a do corredor para mim. Nao era índio, até era bem branquinho, pitosga e com cabelinho a zorro, camisola Adidas vermelha, bem larga, bebia de esguelha por uma garrafa de Pepsi a ouvir o que acreditei ser o melhor som, tudo isto com uma pausa que fazia parar o tempo. Eu, ciente de que jogava fora de casa, abri bem os olhos, humilde, com o meu sorriso condescendente numero 3, e perguntei-lhe, balbuciando no meu castelhano de Badajoz do lado portugues, se o lugar do corredor era o dele, para depois lhe dizer que nao me importava com a troca. Cabrao do puto respondeu logo que o lugar da janela era o dele, mesmo depois de ver o meu bilhete! Argumentava que o número dele era o da janela, enquanto eu olhava a placa que me dava razao. Expliquei-lhe tudo mas cedi, apesar de nao me apetecer. "Já nao falo mais contigo", pensei.
Mais uma vez vi o príncipio da "Guerra dos Mundos" em grego dobrado em castelhano (em Portugal ainda está no cinema. E dizem que o Peru é atrasado...) e, entre adormecer e acordar com dores no pescoco, cheguei a Nasca.

segunda-feira, julho 11, 2005

Rapidinha, por Vasco Granadeiro

O meu ultimo texto ficou incompleto. Mais havia a dizer sobre Buenos Aires mas fechou o webcafe onde me encontrava e mais oportunidades de prosar nao tive. Mas concluo-o apenas dizendo que e uma cidade linda, dinamica, apaixonante! (e eu na merda da ilha...)
Tambem agora nao tenho tempo, esta se a acabar a hora da net mais lenta que ja surfei.
Depois ja estivemos em Mendoza, tambem na Argentina, saltamos para Santigo do Chile e subimos para norte para Calama e finalmente para S. Pedro de Atacama, ainda no Chile, onde nos encontramos. Destaco a espantosa amplitude termica daqui, uns vinte graus! De noite faz um frio de rachar; de dia um calor abrasador. Mas vale a pena!
Amanha vamos para Bolivia e voltamos na sexta-feira.
(Expulso de novo)

quarta-feira, julho 06, 2005

Era o Teu Sorriso, por Vasco Granadeiro

Era o teu sorriso
Na face daquela argentina
O teu sorriso de menina
Inocente e puro, tao querido.
Apesar de contido, vi-o
Era o teu sorriso
Que discretamente ria
Da parvoíce que eu pedia
Áquele retroseiro esguio
De olhar duro e ferido.
Foi com o teu sorriso
Que ela disfarcou gargalhadas
Ao ver as minhas calcas rasgadas
E a solucao de improviso.
Era o teu sorriso
Em Buenos Aires, perdido
Mas que eu achei naquele canto.
Durou só um instante
Mas chegou para me recordar
Que é de ti que gosto tanto
E que o que me faz acordar
É o teu sorriso!
E é tudo o que eu preciso.

terça-feira, julho 05, 2005

Amo-te América do Sul - Buenos Aires, por Vasco Granadeiro

Comecou a segunda fase desta odisseia. Depois de arrasar com uma pequena ilha no Sudeste brasileiro chegou a altura de esventrar a América Latina, que ela bem merece. Tal como o Benfica, também a equipa deste blog apresenta poucos reforcos. Neste caso é só um mas de inquestionável valor: Tiago Calhau. É um jovem promissor, fluente na língua de Luís Figo (castelhano, note-se), com duas boas maos na alimentacao, bom jogo de vinho.
Despedida na Confraria, abraco choroso ao Vereador, engolidos por uma camioneta e assim comecou...
Trinta horas depois somos cuspidos em Buenos Aires: quatro backpackers, totalmente camuflados nesta fauna citadina. A nossa casa toma o nome de Hotel "El Cabildo", muito melhor do que o dos meus "sonhos" na camioneta. Aliás, outro aspecto superou largamente o expectado: além da espelunca imaginada, a fome negra também nao passou de um equívoco. A viagem adivinhava finalmente algum decréscimo de acumulacao de gorduras em torno da cintura pélvica, mas esta cidade é um pecado gastronómico: um buffet livre e uma garrafa de bom vinho tinto custa menos de 10 Eur! Até esta noite, em que optámos por uma alimentacao mais frugal e cuidada - MacDonald's - só tínhamos limpo a boca a guardanapos de pano... Destaco o fantástico Grant's, onde baixo preco contrasta com a qualidade e quantidade dos produtos. O que lá ingeri nem às paredes confesso, temendo agredir alguma mente mais susceptível. De momento, para além dos outros alarves que comigo batalharam pelo primeiro lugar, apenas recordo um ou dois indivíduos capazes de semelhante facanha.

segunda-feira, junho 20, 2005

Confissão de um Rapaz, por Vasco Granadeiro

Já reparaste que só ao pé de ti gaguejo?
Que te quero abraçar quando te vejo?
Mas não posso, não sou capaz
Queria ser homem mas ainda sou rapaz.
E se te olho nos olhos sou um cobarde
Não aguento, desvio o olhar
Tenho medo de me afundar
Então desligo e tento mais tarde.
Mas mais tarde tu não estás em casa
Se quero deixar algum recado?
Não, obrigado.
E fico calado com o coração em brasa.

Aos outros nunca penso no que dizer
Quase tudo me sai direito
A ti, por tanto à indiferença temer
Saem artigos com defeito.
E para te impressionar minto
Sou quem não sou, uma fantasia
Não te mostro o que sinto
E falho por tentar em demasia.
Ou se faço por ser igual a mim
Exagero, eu não sou assim!
Fico parvo, turvo, desinteressante
E no caminho para ti continuo errante.

Não me consigo exprimir contigo
Ser atrevido, charmoso e arrojado
Escondo-me atrás do disfarce de amigo
E a teu lado disfarço um coração acelerado.
Se soubesses a felicidade que te prometo
Serias a Pinóquia e eu o Geppeto
Mas tu não sabes, nem suspeitas
E não pensas em mim quando te deitas.
É a crueldade da esperança sem resposta
Que move um rapaz que de ti gosta
A fazer por te querer merecer e ter
E é o desgosto que o faz escrever.

quinta-feira, junho 02, 2005

Mergulho Nocturno, por Vasco Granadeiro

Alguém buzinava ao portão, devia ser uma da manhã. Era o Cordeiro que, vindo de uma viagem a aproveitar o fim-de-semana prolongado, aparecia naquele serão apenas para dar os atrasados parabéns ao Caliço. Cordialmente, como de costume nesta casa, eu e o Caliço recebemo-lo no salão. Sentou-se, acendeu um cigarro e uma conversa, animada pela descrição da viagem.
Os ruídos à volta desta casa já não nos são estranhos: ou é um solitário carro que passa, ou são pescadores na lagoa, ou mesmo o ser que vive entre o tecto e as telhas, que tanto pode ser um gato como um gambozino. Mesmo àquela hora, o ruído que se aproximava não obteve qualquer reflexo da nossa parte, tal é o hábito. Mas o crescendo de intensidade, que instantaneamente se fez notar, despertou-nos a atenção. No mesmo instante em que nos olhámos, confusos, a vista da sala sobre a lagoa era invadida por um carro que para ela capotava. O barulho de metal a dobrar e os feixes difusos dos faróis, apenas a uns dez metros da janela, compuseram o cenário que nos deixou boquiabertos. Do mal, o menos: caiu de pé. “Ó Xico, ó Xico!” – o Caliço chamava o único que não tinha presenciado o espectáculo, com uma excitação tal que parecia que o Benfica tinha ganho a taça.
De dentro do carro, uma pick-up Ford Ranger, sai um cambaleante sortudo, ileso. Por entre as grades do jardim perguntamos-lhe se está bem, responde que sim e que ia ligar para o seguro. De seguida, nós e a curiosidade, que entretanto chegou, corremos porta fora. O Caliço, destemido fotógrafo, empunhava a sua máquina, farejando algum negócio com a TVI local.
O condutor tinha sumido. Viam-se agora os rastos dos pneus que deixavam adivinhar o acidente: na recta antes da nossa porta, duas faixas pretas, oblíquas ao eixo desta, apontavam o alvo e desapareciam na berma verdejante. Um carro e uma mota, também amigos da curiosidade, paravam e iludidamente perguntavam se estávamos bem.
Algum tempo depois, já o Cordeiro há muito tinha abalado e nós em casa à espera do reboque, uma qualquer disfunção eléctrica causada pela água faz disparar a buzina do carro, incessante. Berrou até queimar, meia hora depois.
Por fim lá chegou o reboque que tirou o carro da água. Mais um emocionante entretenimento: um cabo e puxar até sair. Só mais umas fotos do interior do veículo e demos por encerrada a noite.

terça-feira, maio 24, 2005

Ninguém Pára os Lampes, Infelizmente, por Vasco Granadeiro

É verdade, não escrevo há uns tempos. Há que compreender, as coisas mudaram. O blog já perdeu aquele efeito de novidade, aquele esplendor, a ausência de comentários nas últimas peças é notória. Aqueles zeros desanimam! Que o diga o Caliço, que desanimou antes destes aparecerem. Também já não está calor, nem perto. Na verdade está a ficar um frio que nunca pensei sentir em Terras de Vera Cruz. Apesar de não ser totalmente estúpido e saber alguma geografia, o suficiente para perceber que isto não é o Nordeste, até agora iludia-me de esperança a tendenciosa ligação entre o nome Brasil e o calor constante. “Faz frio mas não como em Portugal!”. Pois… E o trabalho aperta! A entrega é dentro de poucas semanas e há que redigir os textos que ilustram todo o labor computorizado. Por isso saímos menos à noite, e também porque acabaram as visitas e cada um já se fartou dos outros dois. Agora só me motiva à escrita a responsabilidade que assumi na (pouca) manutenção deste blog e a rivalidade com outro destes, de nível bastante inferior, note-se. Também não esqueço os inúmeros, mas tímidos, fãs que acredito existirem. Ou será que sou otário?
É inevitável ceder ao actual tema de maior interesse nacional: Belenenses acaba a Super Liga destacado em 9º lugar. Todos falam do mesmo. Só não percebo porque é que as ruas andam cheias de ilustres personagens vestidas de vermelho, quando o Belém orgulhosamente enverga a camisola azul celeste (que linda cor, vai bem com tudo).
O Benfas é campeão! É por isso! E os lampes saíram à rua! Partem tudo, que bonito. Depois de onze anos a festejarem o troféu do Torneio do Vale do Tejo como se fossem campeões europeus, agora já podem andar à vontade, a exibirem os lindos bonés do tempo do Eusébio com a colecção de anzóis da sorte, a abrirem o dicionário para a televisão. O coitado do Marquês é mais uma vez montado, esse benfiquista de gema. Lá que montem o leão ainda se compreende…
E são muitos, enchem logo os melhores sítios! Naturalmente que aproveitam qualquer objecto a ser contornado para lhe chamarem rotunda e aí fazerem a festa. E a migração? Um verdadeiro êxodo! O subúrbio em festa ataca a capital! Quem nunca foi à Damaia ou à Cova da Moura é de aproveitar. A probabilidade de voltar nu é quase nula: a mitralhada está toda no Parque das Nações. Se alguém for à Buraca não deixe de passar pelo matagal, consta que é lindo nesta altura do ano.
Vou me deixar de injustas difamações, compreensivelmente geradas pela inveja de não ter eu o meu clube campeão, e dou os parabéns ao Benfica.
Pena que o meu Belenenses tenha derrapado nas últimas 27 jornadas, até íamos bem. Mas de olhos postos na nova época encho-me novamente de esperança. Este ano é que é! Por enquanto estamos em 1º…

terça-feira, maio 10, 2005

Cidade Maravilhosa, por Vasco Granadeiro

Apesar dos constantes avisos em relação à beleza desta terra, cheguei ao Rio de Janeiro ainda algo céptico. A minha recente paixão por uma cidade catalã (cujo nome me recuso a mencionar, temendo que o mar de recordações afogue o propósito deste blog) e o descrédito por que tomo a bigamia bloqueavam-me a mente, apesar de ouvir claramente o cântico das sereias por detrás dos primeiros morros.
António, Pedro e Gonçalo gentilmente nos albergaram no seu lar, no Leblon. Diz-se que “uma mão lava a outra”, e se cá em Floripa demos uma esfrega nas patas dos dois primeiros, lá no Rio deram-nos uma lavagem completa, com direito a manicure e creme hidratante. Expresso aqui a nossa gratidão, foram dias inesquecíveis.
No primeiro dia, sexta-feira, demos só uma volta nas proximidades. A zona era realmente bonita, Ipanema tinha aquele dinamismo citadino que falta aqui na ilha, os grandes morros de fronte da Lagoa Rodrigo Freitas conferiam-lhe uma beleza extraordinariamente invulgar.
No Sábado subimos ao Corcovado, mal sabia o que me esperava. Aí deparei-me com a paisagem que me tirou a fala. Erguia-me num cenário magistral, muitos metros acima da cidade, e pela primeira vez a vi tão linda como ela é. Os morros surgiam imponentes, gigantes entre a floresta de prédios, sagrados, apenas as favelas ousavam trepá-los. A lagoa era ainda mais bela vista dali de cima, o único espaço plano e vazio naquela esplêndida luta territorial. O verde da vegetação e o branco das habitações eram as cores dominantes, o anel do Maracanã brilhava ao sol. Mar a perder de vista, pelo oceano ou pela Baía de Guanabara, a ponte e Niterói ao longe. Foi amor à primeira vista.
Domingo decidiu-se aproveitar o sol na Praínha, alegadamente a praia mais bonita da região. Concordámos e dormimos quase o tempo todo.
O plano elaborado no dia anterior levou-nos à primeira visita daquela Segunda-feira: Rocinha, a raínha das favelas. A caminho da praia, Wilson Ricardo, o taxista desse dia, disse-nos que era possível satisfazermos o desejo de visitar a Rocinha. Acrescentou que era o local mais seguro do Rio de Janeiro, excepto quando lá entrava a polícia, a grande ironia da cidade. Nesse solarengo início de tarde encontrámos o taxista que nos levou ao Corcovado, Carlos, que consultou uma funcionária da praça de taxis que lá morava respondendo ela que a favela estava sossegada. Mesmo antes de entrarmos no taxi, Pedro frisou que tinha sido um prazer conhecer-nos. Subimos o morro com um nervoso miudinho, aquele de levar uma ameixa entre os olhos. Mas imediatamente se desvaneceu o medo, aquilo que julgávamos infernal era até convidativo. Na rua principal passavam autocarros, muito movimento e muitas lojas, não havia olhares ameaçadores. Guiados por dois miúdos, subimos a uma varanda, especialmente arranjada para os turistas, daí via-se toda a encosta Sul da favela, a maior parte dela. Uma área gigante, desorganizada e sobrelotada, totalmente caótica. Impressionante.
Ainda nessa tarde fizemos a última excursão, subimos ao Pão de Açucar. Mais uma vista deslumbrante, menos impressionante que a do Corcovado mas não inferior, complementar. Bem em cima da Baía de Guanabara, outra perspectiva da cidade, com uma privilegiada vista sobre Copacabana e sobre o centro da cidade. Aviões pousavam e levantavam do Santos Dumont, contemplávamos o nosso próximo destino.
A caminho do aeroporto inspirei pela última vez aquele calor citadino, que tão saudosistamente iria recordar. Prometi a mim mesmo lá voltar.
Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil, Cidade Maravilhosa, coração do meu Brasil”. Agora sim, compreendo a letra.

quinta-feira, maio 05, 2005


O melhor sorriso do Rabaçal (t-shirt verde) na sua despedida.
Posted by Hello

Caro Rabaçal, por Vasco Granadeiro

Foram as minhas únicas palavras na tua despedida, repito-as agora: “é o fim de uma era”. E assim te foste embora, último visitante de um núcleo duro que marcou este “erasmus” para sempre. Subscrevo também as tuas: “não há palavras para descrever o que aqui se passou”.
Curtimos muito, muito mesmo. Estremeço só de reler os anais do Vereador, mais castiçada e éramos presos! Levas esse saco cheio com o melhor do que aqui se passou, páginas e páginas de memoráveis episódios, a aplicação das leis da ociosidade em todo o seu esplendor. As viagens no Fusca, os nomes, as fotos, as risadas, sabes bem do que falo... E de pensar que tudo começou numa viagem de finalistas que nem fui, e onde tu eras quase estranho!
Ontem bem cedo já se falava do que ia custar a tua ida, mas percebes que nunca por desdém desconversei a veia emocional do Caliço. A tua despedida ia ser a mais difícil, sabia-o, decerto que todas as outras visitas concordariam comigo. E a noite de ontem não podia ser só abraços e choro, enquanto recordávamos os melhores momentos, pedia-se uma como as melhores, uma despedida em grande. O que para o recém-chegado Nuno Sobrinho se apresentava como uma agradável surpresa era para nós já um clássico, a Confraria fervia em tua honra. Que balada, bem a mereceste!
O homem que vinha por quinze dias e ficou um mês e meio... A piada desta frase esconde o prazer que mostraste em estar cá, a fazer a nossa vida, tanto na diversão como no trabalho, a mais lisonjeira das atitudes.
Mas tinhas que ir, e foste. Despeja esse saco de recordações por onde passares, enche-o de novas histórias para na volta nos deliciares os ouvidos, adoçares a nossa vontade de seguir os teus passos em Julho! Levantaste a cabeça e, como um homem não chora, entraste naquele autocarro, decidido. Desbrava por nós!
Boa viagem. Só espero que não faças cá a falta que eu acho que vais fazer.

quarta-feira, maio 04, 2005

Pegar Carona, por Vasco Granadeiro

Raro costume em Portugal, este de pedir boleia. Culturalmente existe a desconfiança no indivíduo desconhecido, injectada logo nos primeiros anos de vida – não falar a estranhos, nunca aceitar boleia de estranhos – que bloqueia tão belo confronto social. Nem condutor nem transeunte sequer pondera este nobre parasitismo, simbiose no caso de uma boa companhia. Então quando os intervenientes são de sexos opostos, uma boleia é encarada como situação de alto risco: o homem é na maioria das vezes um violador, um psicopata ou um assassino “a monte”.
Aqui a boleia é um conceito banalíssimo, todo mundo pega carona. Cá em casa, até as meninas que recentemente nos visitaram andaram à boleia. Encontraram um guia apaixonado que só interrompeu a visita turística pela ilha quando a última delas confessou ter namorado. Na única que apanhei, a caminho da universidade, num dia em que o Fusca estava doente, o simpático condutor, columbófilo nas horas vagas (será perigoso?), explicou-me ser a fraca rede de transportes públicos a gerar aquele costume. Perguntei-lhe se teria os dias contados. Orgulhosamente declarou que “só dá carona quem já pegou carona”. Inconclusivo, mas bonito.
Cada um tem a sua táctica, uns com mais sucesso que outros. Conta-se haver tipos a estudar na nossa universidade que todos os dias vão e vêm à boleia. Um mito urbano, na minha opinião. Alguns até exibem uma placa com o destino pretendido, evitando assim o transtorno da paragem por parte de um benevolente errante. Mas todos, sem excepção, mostram um talento natural para a coisa. Pegar uma carona não tem só a ver com sorte, é preciso querer a carona. É todo um ritual centrado num objectivo, uma verdadeira dança da chuva. No macho a posição é erecta e decidida, o polegar aponta a direcção desejada (apenas os leigos apontam o céu), o braço, em “v” com a mão à altura do ombro, não invade a estrada por muito pouco. Admitem-se paragens entre veículos mas à passagem de um há um esbracejar frenético, com uma ligeira basculação lateral do tronco acompanhando o movimento deste. O olhar é penetrante, quase ameaçador, e não se insulta uma recusa, são ossos do ofício. Na fêmea, uma saia acima do joelho é o suficiente.
Como já todos pegámos caronas agora também as damos. Só às vezes, quando há espaço. A tendência é dar às gatinhas gostosas, sujam menos o carro. Porém já algumas recusaram, vá-se lá perceber porquê

segunda-feira, maio 02, 2005

Nostalgias: Visitados por Mãe Caliço, por Vasco Granadeiro

Realmente é um exagero considerar a visita da Dra. Manuela Caliço uma nostalgia, foi há pouco tempo. Mas é este o nome da rubrica que personifica a preguiça, ou seja, não escrever sobre o que se passou ontem é amanhã uma nostalgia.
Depois de uma rápida arrumação, o Vereador, sempre sorridente, recebeu as doutoras Manuela, mãe do João, e Libânia, amiga. Sempre julguei que o Caliço fosse o menino querido da mamã, mas não. Incrível, não lhe trouxe nada, nem sequer um paio.
À noite comunicou-nos o Caliço que estávamos convidados para jantar, alertando-nos logo de seguida que nem de longe nos devíamos sentir obrigados a ir. “Claro, só mais um churrasquinho cá em casa…”.
Muito bem nos falaram da sequência de camarão do “Barba Negra”, um restaurante na Av. das Rendeiras. Acabávamos de entrar no puro restaurante para a turistada e um simpático empregado, respeitosamente mascarado de pirata, dava-nos as boas vindas. “Desejam rum?”, e nem à frente da mãe o beberolas do Caliço recusou. Na proa da mesa sentaram-se as recém-chegadas à ilha, a meio eu e o Caliço, a tentação de nunca usar os talheres afastou os mais ratos para a popa: Adriano, Xico e Rabaçal. Uma brisa gelada, tão orgulhosamente anunciada à porta, trocava as duas doutoras. A conversa começou amena, de tão embaraçados que estávamos bebíamos suquinhos. “Não bebem Skol?”. Aos olhos das viajantes éramos uns meninos, tenrinhos.
Chegados os primeiros camarões acabou-se a timidez, valores mais altos se levantavam… E daí ao total à-vontade foi um instante. Arregaçar a manga e tirar o relógio são acções que falam por si. Ouve até quem usasse o pronome “merda” mais do que uma vez, a descontracção com que o fez foi o melhor disfarce.
A sequência de camarão é um prato difícil, socialmente falando. Resume-se a comer muito com as mãos. Os talheres estão lá, só não há paciência. Em frente a adultos respeitáveis, com as mãos a pingar alho e óleo, a tresandar a camarão, com os copos baços de impressões digitais, competindo no prato em altura, ficar bem visto torna-se uma tarefa complicada. No entanto, a experiência destapa a solução: só não se pode ser o primeiro alarve. No começo há que resistir à tentação e começar com os talheres. Olhar em volta. Se todos estiverem igualmente educados, desafiar a pessoa do lado a comer com as mãos, argumentando que assim faria mais sentido. Na altura em que cede (e alguém cede sempre), destruir a simultaneidade do acto à última da hora com um sorvo na bebida. Dar um sorriso condescendente, bem visível, e pegar no primeiro camarão. Trigo limpo.
A sequência era realmente boa, mas entre pratos dava para dormir. E o empregado ouviu exactamente isto.
Na despedida fomos novamente convidados para jantar. Bem que tentámos ir ao “Cunha” recordar um bacalhau ou ao “Chico”, rival vizinho dos piratas, mas a segunda-feira era de folga. O mesmo ladrão do mar recebia-nos a sorrir, a mesa foi a mesma, a disposição também, déja vu. Até o ar condicionado ligaram e novamente as doutoras trocaram de lugar, nem de propósito. Enfeitiçados, Caliço, Adriano e Xico pediram a sequência. Resolvidos a quebrar o enguiço, eu e Rabaçal optámos pela moqueca de garopa. A descrição do pirata alegre levou as doutoras até à caldeirada.
Mas se da outra vez demorou horas, desta vez a sequência foi um tiro. Creio ter ouvido, a tempos, o sinal sonoro do micro-ondas, cuspindo o prato seguinte. “Está melhor que da outra vez”. Tolos. Fabulosa a moqueca, não tão boa a caldeirada.
E concluída a refeição despediram-se as doutoras. Só aí deixámos de ser irmãos do Caliço.

domingo, abril 24, 2005


O aniversariante e o seu bolo.
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O Meu Aniversário, por Vasco Granadeiro

Que me lembre, pela primeira vez festejei o meu aniversário no estrangeiro. Apesar da emoção destes dias me deixar estupidamente saudosista, reconheço que estavam reunidas muito boas condições para um inesquecível 23 de Abril. O Vereador nunca tinha acolhido tanta gente. Dez pessoas conviviam cá em casa: três efectivos, seis visitas e uma lapa chamada Rabaçal. Mais quatro viajantes albergavam-se na pousada vizinha, entre eles a minha primeira visita extra-familiar, Xico Frazão. O Sol não desiludia, o fim-de-semana prolongado prometia balada de qualidade. E assim foi, inesquecível…
Sexta-feira 22 nasceu radiante, ponte devido a um feriado cujas razões desconheço, cumpriu-se o desejo de recuperar na praia as energias dispendidas na noite anterior e cedo se ouviu o rugido do Fusca a caminho da Mole, com pranchas a cavalo. De perto éramos seguidos pelos Frazões, sedentos de mar e areia, inocentes. Repetiu-se a brincadeira infligida sobre Pita e Zé Maria, os patos chegados na véspera, na qual a “praia” da Lagoa da Conceição se apresentava como a esplêndida Praia Mole e as suas águas paradas o Oceano Atlântico, mas sem o sucesso dos pioneiros. Não era tarde quando regressámos a casa. No plano para o serão constavam banhos, cerveja, jantar e uma dúvida quanto ao destino da noite.
Mas nas mentes de todos ainda vivia o aniversário de Rabaçal, tímido, a princípio um fracasso declarado, número escandaloso de baldas, quiçá vingança da sua ausência na sua meia-noite, depois compensado por uma enchente tardia e inesperadas prendas. Descansava-me a maior probabilidade de superar o jantar dele, já que o fundo não andou longe, mas preocupava-me a menor, a de bater lá. Era com ele que eu tinha que ter cuidado, atento ao boicote, à facada nas costas. Mas a sua postura, fuligem em todos os poros, assando a picanha, ilustrava o conformado, recuperado do mau bocado.
Como o meu dia de anos era só o seguinte, zero horas em diante, achou-se por bem fazer parte do requintado bufete uma massa misturada com carne previamente assada, a viver no frigorífico fazia dois dias. “Para poupar”, diziam eles. Ainda outra massa acompanharia a única picanha comprada, 1,5 kg para quinze pessoas em conformidade com a máxima da noite, esta com o queijo que enche a sandes mista. Apenas de serviço devido à importância da ocasião, Maria e Catarina, que com Madalena formavam o trio feminino da casa, confeccionaram as massas superiormente. Numa, em vez de disfarçar a carne pútrida, esta surgia como o ingrediente mais apetecível; sobre a outra todos os pedaços de queijo, longe de derretidos, coroavam-na de vergonha. Estavam as massas de tal maneira desfiguradas que os famintos mais precoces atacavam o pão depois de as olharem nos olhos. Que honra, que soberbo manjar!
A animação era uma loucura. Uns adormeciam-se no sofá, outras morsas bocejavam, das colunas saía um silêncio ensurdecedor. Frazão, António, Pedro e Miguel ocupavam a primeira fila com vista para a televisão. Nem o bigode que deixei por fazer seduzia a plateia. Neste cenário, Caliço soltava sonoras gargalhadas enquanto apreciávamos o sucesso do jantar. “Não tenho amigos cá”, explicava.
Com a aparição da picanha tudo se desvaneceu e, valha a verdade, a massa acompanhou-a sem grande alarido. Tinha sido um pequeno percalço e a esperança de uma boa balada mantinha-se. Além disso, este não era o meu jantar, o oficial era no dia seguinte.
Com a meia-noite as primeiras congratulações, ênfase nula, meteram dó os laços abraços, os curtos beijos, os cumprimentos modestos. Por esta altura já se vislumbrava o fundo.
Chegava a outra metade da comunidade portuguesa afecta ao Vereador. Quis o destino, esse mariola cheio de coincidências, que outra pessoa nascida exactamente no meu dia, Cordeiro de seu nome, partilhasse comigo este pedaço de terra longínqua. Vinham também eles de um jantar não-oficial, aparentemente gostava mais dele a sua metade do que de mim a minha: sorriam. As chapadas de afecto, o barulho gerado, um novo ânimo despertado encheu-me de novo de esperança. “Nem tudo está perdido”, pensava.
Nunca levei a peito tudo o que se estava a passar, muitas vezes me ri do caricato aniversário, inesquecível por estar mesmo a roçar o fundo. Tudo corria mal, não havia declaradamente culpados, pode ser que tenha sido do cansaço. Talvez um café animasse as hostes.
O meu aniversário já estava de joelhos, o que aconteceu de seguida decepou-o sem misericórdia. Como se não bastasse de tragédias por uma noite, faltou a luz. Agora sim, um festão. Ria-me e encolhia os ombros, impotente.
De dentro de uma caixa de pizza, que dentro do frigorífico nunca enganou ninguém, sai um belo bolinho para mim, com potencial, quase capaz de fazer esquecer todo o fiasco até então. “Parabéns a você”, soprei o 23, palmas, bolo. “Gostava de agradecer a presença de todos…”, pregava eu aos peixes da lagoa. Realmente não soou o costumeiro “Discurso!”, presunção da minha parte. Mais uma risada do Caliço, saído do banho de onde entoou a canção.
É óptimo ter um portão eléctrico, um botão e ele abre para confortavelmente se estacionar o carro no pátio. Não é tão bom quando falta a electricidade, não dá para entrar e pior: não dá para sair (a máquina de café também é eléctrica). Claro está que todos estacionam no interior, e como a energia teimava em não aparecer, adeus balada. E foi assim que esta noite festiva se transformou num verdadeiro campo de concentração. Só o meu irmão conseguiu impedir que hordas de aveirenses, cegados pela liberdade, rebentassem com o portão.
Finalmente chegou a luz e com ela o fim de tão fatídica noite. Eu, já conformado com o fracasso, e os poucos resistentes, sentados à mesa, saboreávamos episódios do serão ao ritmo das últimas cervejas. À excepção do da minha mãe, contabilizava zero telefonemas. Inesquecível noite, do pior possível, teve a sua piada. Agora sim, tinha a certeza que o dia seguinte seria melhor e com este pensamento me deitei.
O dia 23 foi claramente melhor. O Sol brilhava ainda mais, chegado a casa vindo da Mole recebi os primeiros telefonemas. Apesar de já terem sido a 24 na origem, não me importei, fizeram-me muito feliz. O desejado restaurante, para o jantar conjunto, fechado, também não me aborreceu. Estava imune a este género de percalços e rapidamente se arranjou uma solução. Termos sido roubados nas vinte e oito sequências de camarão também não me abateu, simplesmente beneficiámos do facto de não ser obrigatório pagar os 10% de gorjeta. A Confraria das Artes também já viu melhores noites mas era tarde demais para me chatear, estava lançado.
Esgotado da noite desfaleci na cama. Nisto, alguém me apunhala nas costas! Inesperado, visto que dormia de barriga para cima. Um cluedo de fácil resolução.

terça-feira, abril 19, 2005


Não é lenda, existe mesmo.
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O Enigma, por Vasco Granadeiro

É do conhecimento geral de que quando se está a fazer uma compra se está a exercer uma escolha, que uma escolha depende de critérios e que esses podem ser do mais variado género. Qual o critério quando se está a comprar completamente no escuro? Ainda fruto da nossa imaturidade, o critério cá de casa é simples, o mais barato. Claro que tudo muda de figura quando se tratam de produtos chave, base da nossa dieta alimentar, como por exemplo a cerveja. Esses são sujeitos a uma elaborada análise, baseada na múltipla experimentação, até dar-mos com os eleitos. Agora com os outros, como o sal e o açúcar, confiamos que o mais barato não será muito pior que mais caro. Sal é sal, não pode ser salgado demais, tal como o açúcar não pode ser demasiado doce! O prazer está em gabar a compra aos outros, com um sorriso vitorioso, e com a poupança levar um parvo pacote de bolachas que despachamos no caminho para casa.
Coube-me comprar uma margarina. Margarina é a merda que usamos para cozinhar. O azeite exibe-se na prateleira com um preço ridiculamente caro, até para nós europeus, daí se reservar apenas para temperar a salada ou regar uma corvina grelhada. Em analogia com o sal, merda é merda, desde que frite… E à minha frente estava a promoção da semana: “Delicata 500 g: R$ 1,29”, a rir-se para mim, sedutora (um real anda à volta dos trinta cêntimos de Euro). Nem hesitei. Quando li “cremosa” na embalagem posso afirmar que um foco de luz me iluminava no meio do supermercado. A este preço, ainda por cima cremosa! Um achado ao alcance de poucos. E dirigi-me ao corredor das bolachas.
O jantar era a “Massa do Caliço”, cada vez mais “Massa apenas supervisionada pelo Caliço”. Eu fiquei com a fritura da carne e ele com a cozedura da massa. Eu: alho, cebola, a margarina e um toque de óleo; ele: água a ferver e um pouco da margarina. Estranhamente deixou os alhos e a cebola mais tempo à espera que o habitual, mas lá se desfez. Talvez o lume não estivesse tão alto como de costume… Mas não era só isso, algo mais não batia certo, sentia-o. Olhei em volta. O Caliço polia o cu no sofá, desta vez auxiliado por Rabaçal, já que o jantar não era churrasco, o Xico navegava, o cenário era o normal. Agucei os outros sentidos e finalmente percebi: era o aplauso. Diz-se que uma boa fritura tem um som característico, similar a um aplauso. Esta margarina soluçava na frigideira, borbulhava, e o som era descontínuo, pareciam foguetes no mais pitoresco arraial de uma aldeia nortenha. Chamei o Caliço e apreciámos o espectáculo, triste, note-se. Quando olhámos a panela de água a ferver a margarina não se tinha desfeito mas sim formado bolas indissolúveis, verdadeiras culturas de ranço, e assim bailavam no fervor da água. Apetite, foi-se. Lembrei-me de novamente verificar a embalagem, à procura de alguma pista para o estranho fenómeno, e lá estava. Em letras vermelhas lia-se: “ Não recomendado para uso culinário”. Agora tudo começava a fazer sentido: daí o seu preço diminuto e a sua péssima prestação. Mas o mais óbvio estava ainda por esclarecer: para que serviria? Vasculhei toda a superfície à procura de algo como “Usar somente na alimentação de cavalos” ou “Produto com fins decorativos”, mas em vão.
Margarina, por definição, é para cozinhar! Ou estou enganado? Para barrar no pão também não pode ser – lamento o infeliz inconsciente que se lembrar de o fazer – essa gordura toma o nome de manteiga e é mais cara, isso eu sei. Então qual a sua utilidade?
O enigma mantém-se, até agora ninguém soube responder para que serve uma margarina imprópria para a culinária. Ainda lá está no frigorífico, aguardando ordens, sendo a de despejo a mais provável.

quarta-feira, abril 13, 2005


Onde está o Bolly?
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O Bolinha, por Vasco Granadeiro

Estava eu sentado ao computador, a trabalhar, claro, quando, pela porta atrás de mim, entra o Xico. Dizia a alguém, junto a ele: "Este é que é o Vasco, o único que não conheces.".
Nessa manhã, Xico e Rabaçal tinham ido buscar a última encomenda do Vereador, Gonçalo Trepa, mais uma por via aérea. Conheciam-no pela espantosa organização (assim o diziam...) da viagem de finalistas do nosso curso. Perdendo largamente para a minha atraente alternativa, não fui à viagem e daí não saber de que português se tratava.
As mãos termiam-me, o coração pulsava selvaticamente, ia conhecer o afamado Trepa. Virei-me e, para meu grande espanto, vejo uma cara conhecida. Lembrava-me dele como Sobral, este também restelense. Já não o via há uns tempos, não sabia quando tinha mudado de identidade, mas sorri perante a coincidência.
Daqui de longe, soltar um "como o mundo é pequeno" tem um sabor diferente, tal como o bacalhau com batatas. O meu irmão chegou no dia seguinte, intencionalmente ignorante, para que pudesse também disfrutar destes pequenos prazeres da vida. Quando o viu exclamou "Bolinha", e o nome de guerra colou.
Rapidamente se adaptou ao árduo quotidiano dos visitantes e também ele aprendeu onde era a praia, a balada e o frigorífico. Foi emocionante vê-lo crescer: passou do banquinho da cozinha para o sofá da sala como se tivesse saltado todo o ensino básico. Revelou inacreditáveis dotes musicais em tons brasileiros, ao tornar o dueto Rabaçal e Xico num trio. E assim, de dois trambolhos passaram a três, e os tímpanos dos deliciados ouvintes sofreram um acréscimo de sofrimento de 33%. Todavia mais uma notável contratação do Vereador, mais eficaz a gerar sorrisos do que o Benfica a jogar à bola.
Abandonou-nos ontem de manhã. Devido à curta duração da sua estadia, o último adeus não foi o mais efusivo, mas ainda assim sentido. Tristemente foi-se, mas imortalizado pelo extraordinário legado que deixou para trás. As alcunhas diversas, expressões, abordagens sociais, interjeições até, verdadeiros símbolos da mais pura castiçada.

terça-feira, abril 12, 2005

Nostalgias: Maldito Galináceo, por Pedro Coutinho

Com a pontualidade de um badalar helvético, cada manhã no auge da turgidez do merecido repouso da batalha nocturna anterior, aquele galo, em tempos maldito, brutalmente violava esse justo descanso. Com a mesma exactidão, surgia a promessa, no meio da ressaca dessas ásperas violações, que seria aquele o dia que o galináceo virava cabidela...
A intensidade da constante castiçada que brotava da áurea do Vereador desvia aqui qualquer instantâneo e frívolo evocar de alguns desses episódios, reforçado pela lotaria na escolha desse pódio. Até porque a castiçada não é feita de um ara de melhores momentos, mesmo que se consiga edificar tal escolha, mas da boa onda que varria toda a costa do Vereador até encher alma com aquele sorriso esclarecedor, totalmente confirmado na ausência deste na hora de partir.
Por tudo isso onde agora a memória vai devaneando, até no maldito galináceo o suspiro mergulha um olhar. Importa contudo realçar, para quem não se banhou nesta áurea, que sendo as ondas que varrem o Vereador deveras cachaça, desaguam na pura dependência que a próxima seja ainda melhor. O momento saudoso está então virado a esse confinante momento, seja qual for a nova praia onde se esteja, pois a áurea já foi vivida. Problema apenas surge por a praia não ser mole, pois sabemos como a vida é...

sábado, abril 09, 2005

História de uma Toalha, por Vasco Granadeiro

Apesar de todo o nosso esforço no sentido da maturação, já recompensado por provas concretas, apercebo-me da longa caminhada que ainda temos pela frente. Falta-nos talvez uma presença feminina ou alguém com experiência, independente, um organizador sapiente de mão firme. Acho que são algumas prioridades mal definidas, sintoma claro da já mencionada síndrome do mal instalado satisfeito, a epidemia da casa. Talvez o meu irmão, recém-chegado, tenha os anti-corpos necessários para salvar o Vereador.
A (única) toalha de mãos da casa-de-banho principal chegou a esta casa pela minha mão, trouxe-a de Lisboa apostando como seria a única nos primeiros tempos. Os primeiros tempos já lá vão e ela continua filha única. Apesar de dormir numa suite (aposentos anexados de lavabos), fazendo prevalecer o sentido de sociedade, cedi a minha toalha à casa-de-banho principal.
Foram dias áureos, os primeiros. Fresca, valiosa, popular! As luas passaram e ela perdeu algum do seu brilho, naturalmente. Enfrentava dias difíceis, uso constante, horas extraordinárias, baixo soldo, perfeita metáfora do serviço militar obrigatório. Mas ainda assim largamente apreciada, elogiada nas reuniões pós-refeição, em relatos do último contacto com ela. A sua bravura era reconhecida pelo Vereador em pessoa.
Mas os quinze minutos esgotaram-se e com eles a glória. Os últimos dias de humilhação a que ela foi sujeita para sempre me inquietarão as noites, suo gelado só de me recordar. Entre os seus proxenetas reinava a desconfiança, olhares frios se cruzavam à porta do seu lar, era sujeita a tácticas malévolas, linchamentos cruéis. Ninguém queria revelar qual zona da toalha detinha, temendo a conquista alheia, o seu uso era totalmente secreto. Em volta do centro da face principal, zona de ninguém, havia ainda algumas serventias. Onde? De quem? Poucos o sabiam… Certa vez, numa inocente desatenção, por uma fresta iluminada, vislumbrei Rabaçal, Conde dos Cantos, enxugando-se. Desmascarei-o, sem dó nem piedade. Um mero peão nesta guerra sangrenta, possuidor de um território pobre, pequeno, quiçá partilhado. Nada comparado comigo, Imperador da Curva do Varão.
Agora para lá jaz, no mesmo varão que a viu crescer. A guerra acabou, a desejada matéria lavada esgotou-se, foi abandonada, como uma mina sem minério. Esquecida, a família recebe uma reforma miserável, triste sina. Acendeu-se o cachimbo da paz e choraram-se as baixas. Todos pagamos o acto imoral com a contaminação pela síndrome.
Agora pretendemos redimir-nos de tal vergonha, uma esperança surge no horizonte: uma lavandaria. Tenta-se reescrever as páginas onde o Vereador, atento, desnuda as nossas almas.

sexta-feira, abril 08, 2005

A Marca, por João Pinto Caliço

Uma brisa ténue e suave invade paulatinamente o meu quarto... Começava a minha aventura por terras brasileiras...
Foi há precisamente 45 dias que tudo começou. E nesta data simbólica , decido estrear-me neste, já tão afamado, blog.
Reconheço que, por responsabilidade do brilhantismo literário com que o Vasco nos brinda quase diariamente (qual Eça!!!), a fluidez (ou falta dela) do meu discurso teima em esconder-se... Depois do vendaval genial de narrativas inesquecíveis que por aqui circulam, sinto, ainda que orgulhosamente, alguma insegurança por partilhar este espaço com tão dotado talento...
Mês e meio depois, acreditem que é, de todo, impossível descrever o que por aqui se passa... É uma impressionante mistura de experiências, sentimentos...
Mas passado todo este tempo, ultrapassada esta marca inolvidável dos 45 dias longe de casa, dou por mim a pensar que, na verdade, esta marca temporal é, manifestamente, irrelevante...
A verdadeira, e importante marca, é aquela que todos vocês, amigos e conhecidos nos deixaram... A saudade!!!! E é por vocês que foi criado este blog... Para atenuar esta distância física que, não poucas vezes, cruelmente nos dilacera...
Contudo, reconheço que, amiúde, olho para o lado e sinto que essa distância se confina a um curto pensamento, uma lembrança... Nesses momentos, estão aqui tão perto...


"Já percebi que o lusco-fusco passado nesta sala (aqueles 5, 7 minutos), a observar a lagoa e as longínquas luzes do centro, facilmente me seduz.".
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Divagando, por Vasco Granadeiro

Mais uma vez me apanho sozinho em casa, querendo aproveitar os poucos momentos de sossego para trabalhar, mas em vez disso escrevo. Já percebi que o lusco-fusco passado nesta sala (aqueles 5, 7 minutos), a observar a lagoa e as longínquas luzes do centro, facilmente me seduz. Não está vento, a lagoa sossegadamente reflecte a última claridade, e está aquele calor ameno, confortável.
E neste cenário distraio-me do trabalho, dou por mim a viajar, penso tudo o que se tem passado, sensibilizado com o que esta aventura até agora me tem dado. Recordo os bons e maus momentos, as castiçadas, as despedidas, o que mudou, e vergo-me perante a importância da sua existência. Para verdadeiramente reconhecer o doce tem que se ter provado o amargo. É por fases que estes sabores nos aparecem, e jamais durante alguma se encontra a razão. É nestes momentos insípidos, tão doces quanto amargos, que racionalmente se reconhece o equilibro frágil que estes dois proporcionam. E assim surge o ímpeto refrescado da procura de um novo doce. Não interessa qual, tanto pode ser o doce de leite, para desenjoar da compota, como o mel que tão viciosamente nos inunda os sonhos, desde que tenha um novo sabor, mais esperançado e rejuvenescedor.
Claro que a duração destes momentos é curta, até demais. E aí, nada como um copo de água.

quinta-feira, abril 07, 2005

Nostalgias: A Raspadinha, por Vasco Granadeiro

Raiava o dia na Praia Mole. Fim de noite, Latitude clássico, queimavam-se os últimos cartuchos no bar da praia, ainda fechado. Caliço dormia, Rabaçal brincava alegremente com um cachorrinho, ligeiramente pulguento. A conversa banal hipnotizava os restantes. Eu admirava a poesia das ondas, esplendidamente iluminadas pelo astro-rei, abraçando a areia com o mesmo saudosismo que eu sinto por Portugal. Isto e tentava que o pulguento saltasse para cima do Caliço.
À frente dos mandatários do Vereador erguia-se uma tarefa tenebrosa, associada a um ambicioso dia de praia matutino. No dia anterior, eu, Coutinho e Rabaçal empurrámos o Fusca para a porta da oficina, devido a se ter rompido o cabo da embraiagem. Sem dormir, tínhamos que ir dar a chave do carro ao mecânico, cuja oficina abria apenas às 9h00, e seguíamos de volta para a Praia Mole, equipados de prancha, prontos para um dia inesquecível. Dormir… Depois se veria onde.
Estavam de visita à ilha duas garotas, Raquel e Diana, primas, amorosas. A nós se tinham junto porque o Xico conhecia a Raquel de Lisboa. Estavam hospedadas no vistoso Praia Mole Park Hotel, pesadamente citicado por estas, diga-se de passagem. Tinham alugado um Chevrolet Celta, alvo imaculado, um belo frigorífico. Estavamos sem o nosso Fusca, elas iam-nos levar a casa, num belo gesto de simpatia. A caminho do hotel, onde estava o Celta, tive uma ideia luminosa: pedir-lhes o carro emprestado! Era perfeito! Não nos tinham que ir levar, tínhamos um carro para a nossa tarefa e para voltar para a praia com a prancha. Os outros resistentes, Câmara e Rabaçal, aprovavam a ideia de sorriso estampado na cara.
E, em mais um gesto largamente apreciado, as primas cediam o carro, apesar de apreensivas. Não havia problema, estavam a emprestar o carro a indivíduos de confiança, só que elas não o sabiam. E assim foi. O condutor, habituado à condução rude do Fusca, responsável, eu, Rabaçal a co-piloto, Câmara a enfeitar o banco traseiro. Era um percurso díficil, estrada estreita, árvores surpreendentes, uma combinação de Estrada dos Tijolos Amarelos com Floresta de Sherwood, manobra de marcha-atrás. Já com o motor a trabalhar, as meninas despediam-se.
- Há aí alguma árvore? – perguntei enquanto engrenava a marcha-atrás, tentando avistar alguma.
- Nenhuma. – concordavam os dois médiums, sem sequer virarem a cabeça.
A caminho, então. Nisto, um ruído. Quando nos voltámos, o carro beijava descaradamente uma árvore que se prostituía no meio da estrada. Uma vergonha, e elas nem a dez metros. O riso atropelava-se com o nervoso miudinho. Felizmente elas não toparam e arrancámos. Um assobio de desconexão soou. A árvore lá ficou, de novo ao ataque, esperando o próximo infeliz.
Chegados a casa fomos ver o prejuízo: marcas da árvore acima da roda. Auxiliado de Limpol, detergente da louça com mostras de alta qualidade, tirei a nódoa que tanto nos apoquentava. E, sorte a nossa, não passava disso mesmo, por debaixo estava liso, não amolgado. Enquanto isso, Câmara, iluminado, despejava álcool na ferida, só interrompido pela minha oposição feroz.
E a partir daí tudo correu sem mais sobressaltos. Câmara desistiu e desfaleceu na cama. Eu e Rabaçal cumpríamos o plano e saíamos de casa direitos ao mecânico, de prancha às costas. Devolvido o carro, achámos por bem dormir ali mesmo no hotel, de toalha estendida no relvado, à sombra, na margem Norte da piscina.
Elas nunca souberam do que se passou, mesmo depois de inspeccionarem o Celta. Agora pode ser que descubram…
É claro que lamentamos o sucedido, principalmente eu que conduzia. Mas note-se a nossa preocupação, o nosso esforço para não as desiludir, bem sucedido por sinal. E ainda mais com esta humilde confissão! Perdoados?

quarta-feira, abril 06, 2005


Tudo sob controle.
Posted by Hello

Dia de Peixe, por Vasco Granadeiro

Incrível a quantidade de dias que passaram em que só comemos carne. Só quando a voz desapareceu para dar lugar ao mugido é que houve iniciativa para comprar um peixinho. Rabaçal e Caliço, verdadeiros lobos-do-mar, com reais em vez de anzol e linha, compram três belas tainhas. Três… Somos quatro em casa… Eu no fogão, Rabaçal no churrasco, Xico na net, Caliço a roçar o cu no sofá, trabalho de equipa. Batatinha cozida, ovo, cenoura, um manjar dos deuses, regado pelo néctar divino, Skol. Correcção: para descanso de todos os católicos, na Sexta-feira Santa baniu-se a carne e comemos uma bela sequência de camarão, num restaurante.
Hoje crescemos mais um pouco. Envergonho-me só de pensar que tantas vezes surgiu a ideia de comer-mos peixe mas ninguém mexeu o rabinho. Esse mau hábito, síndrome do mal instalado satisfeito, do qual eu e o Caliço sofremos nos primeiros quinze dias cá em casa, que nem as malas desfizemos. Águas passadas não movem moinhos, e disto não se fala mais, fica só entre nós.

Despedidas, por Vasco Granadeiro

Hoje partiu Pedro Coutinho. É a segunda despedida difícil num curto espaço de tempo. Antes dele foi Pedro Câmara que pela última vez saudou o honorável Vereador Osni Ortiga.
Lembro-me, como se fosse ontem, da chegada de cada um deles. A convite do Caliço aparece Coutinho, na última noite da pousada do Cajó. Já aqui no dois-meia-cinco-zero bate à porta um viajante, Câmara de seu nome. Indescritíveis os episódios lúdicos, momentos de pura castiçada, que desde então sucederam. Destes quatro passámos a sete e proporcionalmente aumentava o espírito que o Vereador orgulhosamente acolhia. O único que sofria era o Fusca, sobrelotado, enquanto a picanha e a caipira engordavam os seus ocupantes. E à medida que o tempo passava, mais mobília estes dois se tornavam. E leia-se, mogno! Melhor, pau-brasil.
Classifico como revoltoso, e acredito piamente não ser o único, este choque de emoções: o auge da alegria e os soluços da despedida. São injustos os últimos momentos, as últimas palavras a pronunciar quando se quer dizer tudo mas não se diz nada. No entanto, é a transparência destes momentos, o olhar revelador, o abraço sóbrio, que traduz para a linguagem universal tudo aquilo que se tentou pronunciar mas que o nó na garganta não permitiu. Esta transparência, que tão bem o orgulho masculino sabe esconder, mas que surge de forma tão honesta nestas horas difíceis.
Chora o Vereador, a cama partida e o desconfortável sofá-cama preto, que tão bem vos conheceram. Até o Fusca, apesar das francas melhoras da hérnia devido a trabalho esforçado.
Saudade.

Aviso

Alerta-se os ex-residentes ou ex-frequentes assíduos cá de casa que gozam do direito de participação no blog, recordando histórias do vosso tempo. Basta enviarem os vossos textos para vascogranadeiro@hotmail.com ou joaopcalico@hotmail.com.

Inauguração

O público pediu, nós cedemos. Inaugura-se hoje o blog oficial dos afectos ao 2650 da Rua Vereador Osni Ortiga, na Lagoa da Conceição. A partir de agora não faltarão linhas de bom humor, de emoção, simples narrativas ou até poesia. Podem finalmente pôr-se a par dos episódios relevantes cá passados, à distância de um click.
Leiam e participem. Queremos os vossos comentários, do mais caloroso elogio ao mais frio escárnio. Acompanhem-nos nesta odisseia.

Atenciosamente,
Os Intervenientes